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I n c e r t e z a
Foi
no ano de 1990. Eu me encontrava na Alemanha, e sentia, mais do que
nunca: as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá.
Nas últimas 3 décadas, a cada seis anos eu tinha feito
minha viagem regulamentar de licensa e de estudos à Alemanha,
junto com minha esposa Margarida. Agora, um ano após a sua
morte, pela primeira vez viajara sozinho. Ainda não me
acostumara a andar solitário pelo mundo. Era mais difícil
do que havia pensado. Passei um tempo com a filha e os netos em
Radevormwald, fui a Berlim, para sentir de perto a euforia dos
alemães pela recente queda do muro, parei alguns dias em casas
de conhecidos. Participei de cultos solenes. Fui a concertos e
conferências. Junto com um grupo de turistas alemães fui
passar uma semana em Israel.
Confesso
que me sentia um pouco perdido, nestes meses passados no país
dos meus antepassados. Nunca antes me sentira tão
solitário
como naquele mundo saturado de belezas naturais, de história,
de cultura, de riqueza. Não era nenhum problema de
diferenças
culturais que me isolasse das pessoas. Eu falava o alemão
tão
naturalmente como qualquer dos filhos da terra. “The lonely crowd” – a
multidão solitária - o título de um
livro americano talvez explique melhor a natureza de certo tipo de
solidão que por vezes nos sobrevém. Mesmo uma
multidão
pode abrigar (se é que abriga) ? ou até gerar -
pessoas solitárias. Você pode sentir-se solitário
num estádio de futebol, em meio a uma galera delirante.
Ao visitar um
casal conhecido no Palatinado, na margem esquerda do Reno, cheguei a
realizar um antigo sonho: O de dar um giro, a pé, pelas
cidadezinhas e aldeias das quais meus antepassados tinham emigrado ao
Brasil, 150 anos antes.
Certo dia, cedo
de madrugada, meus amigos me levaram de carro à cidadezinha de
Kusel, não muito longe de Kaiserslautern (de mistas
memórias para as seleções da copa de 06 que
lá jogaram...) - deixando-me na estação
ferroviária, onde me procurariam de novo, três dias mais
tarde, ao anoitecer. Moxila às costas, pus-me a caminhar por
campos, aldeias e florestas. rumo a uma pequena cidade situada a uns 25
km de distância. Era princípio de maio, um dia ensolarado,
o ar fresquinho, dia feito mesmo para uma “wanderung” – uma caminhada,
como tentamos traduzir esta palavra bem especial do alemão.
Wandern, fazer uma longa caminhada, por lá é quase uma
coisa mística, um identificar-se com a natureza, com florestas e
campos, montanhas, rios e lagos.
Eu estava bem
preparado para minha extensa caminhada. Tinha adquirido uma wanderkarte
para a área, um mapa em escala grande, feito especialmente para
“wanderer”, pessoas que queriam percorrer a paisagem a pé. O
mapa era bem específico, às vezes chegava a mencionar
como referência um carvalho nodoso, ou algum penhasco de formas
estranhas. E os próprios caminhos e trilhos eram todos marcados
e sinalizados. Números, letras, círculos e traços
brancos em árvores, pedras ou postes tinham que coincidir com
sinais idênticos no mapa. Não havia como errar o caminho.
Ainda preciso
acrescentar que no Palatinado se encontra uma das maiores florestas
contínuas da Alemanha, coisa de centenas de km quadrados.
Floresta, por lá, é floresta. Não se permite que
dentro dela se façam loteamentos ou se construam casas isoladas.
É mato contínuo mesmo, um sem fim de faias,
bétulas, pinheiros e carvalhos, muitos deles,
centenários, todos plantados em ordenadas filas. Uma mata a se
perder de vista. Mas era isto que eu estava procurando. Depois de
experimentar a multidão solitária, eu queria
solidão autêntica, para reorientar a minha antena, para
falar comigo mesmo e com Deus.
Foi uma coisa
gratificante poder caminhar pela paisagem que fora o chão que
meus antepassados haviam pisado. Um antigo cemitério, perto de
uma aldeia – com nomes que me eram familiares desde a infância:
“Aqui jaz Karl Scheidt”. Poderia ser aquele bem lembrado tocador de
bandônio, que admirara na infância, Karl Scheidt, primo
irmão de meu pai. Dois ou três caminhantes com os quais
consegui puxar conversa. O pessoal falava o mesmo dialeto que eu falara
na infância. Eu tinha chegado às minhas raizes!
Alcancei minha
cidadezinha (se não me engano, foi Thallichtenfels), cansado,
mas feliz. Pernoitei numa pousada rústica, e na outra madrugada,
depois de um café reforçado e com uma
porção de sanduiches na moxila, continuei minha
caminhada, desta vez para entrar no grosso da floresta.
Foi neste segundo
dia que o imprevisto aconteceu. A área da floresta que eu estava
atravessando tinha sido castigada por um tufão, dois anos antes.
A ventania tinha derrubado um sem número de árvores
possantes. Cheguei a trechos sempre mais marcados pelo vendaval, e
afinal me deparei com centenas e centenas de pinheiros derrubados, que
jaziam alinhadinhos na direção que o vento soprara, cada
um com seu torrão de raizes rasas arrancado da terra, qual
gigantescas panquecas. Depois eu soube que por dois anos os
administradores florestais vinham tirando madeira das florestas
destruídas, e ainda não tinham dado cabo da tarefa. No
trecho que eu estava tentando atravessar, ninguém tinha nem
começado a mexer. O pior era que ninguém me avisara de
nada. Eu bem poderia ter feito minha caminhada por outras áreas
da floresta, não afetadas pelo tufão.
E lá
estava eu com minha wanderkarte, meu minucioso mapa-guia, sem saber o
que fazer. Estava sozinho, assim como o desejara. E estava perdido numa
das maiores florestas do país. Meu mapa continuava preciso e
correto. Mas a paisagem estava errada... O mapa alistava sinais que
não correspondiam mais à realidade da floresta. Os sinais
tinham sido derrubados, junto com as árvores. Eu era obrigado a
improvisar, a ignorar sinais dúbios, a tentar a sorte seguindo
por atalhos. O mapa falava do “eiserner Mann”, do “homem de ferro”,
junto ao qual eu deveria tomar a direita. Mas onde é que ficava
aquele homem de ferro? Tratava-se de uma estátua, ou era o nome
de algum penhasco de formas bizarras? Eu estava sozinho, não
poderia perguntar ninguém. Pelo dia inteiro não
encontraria viv´alma naquela senhora floresta. Tinha o mapa
correto nas mãos, e me achava perdido num matagal que parecia um
verdadeiro labirinto.
Vejam, era esta
uma situação em que eu teria precisado de um companheiro
que conhecesse aquele matagal. Teria precisado de um hermeneuta, como
diziam os antigos gregos, um intérprete da realidade, que
compartilhasse comigo o que ele mesmo sabia e o que ele tinha a dar:
que me dissesse, entre outros, qual era o ponto do mapa em que me
encontrava. Era isso: o ponto onde eu me encontrava no mapa – este era
o cerne do problema. De GPS, sistema de posicionamento global, naquele
tempo ainda não se ouvira falar. Mas eu não tinha
hermeneuta. Eu estava sozinho, e meu mapa, antes tão
confiável, me estava deixando na mão.
Sentei-me num
tronco, “matei a que mata”, a fome, a saber, comendo meus sanduiches;
repensei minha situação. Ela poderia ser bastante
séria. Dotado de péssima memória
geográfica, eu não dispunha daquele instinto quase que
animal que certas pessoas têm, quando se trata de achar o caminho
certo. Não entrei em pânico, mas estava preocupado.
Já passara do meio dia, e a perspectiva de ter que pernoitar
naquele matagal não era nada agradável. Eu me lembrava
que de madrugada tinha visto geada à beira do caminho. E o mais
preocupante: Ninguém sentiria minha falta quando não
chegasse a meu destino programado.
Tentei minha
sorte ladeando áreas mais castigadas pela tempestade e tentando
achar algum sinal no meu mapa que me desse certeza do lugar onde me
encontrava. Mas os sinais tinham sido derrubados, ou então,
não pareciam ter nada a ver com minha wanderkarte. Embrenhei-me
na ramagem de um trecho que me parecera promissor, e cheguei a um
verdadeiro beco sem saída. Voltei até uma clareira e
repensei minha situação. Vou para cá, ou vou para
lá – ou vou tentar voltar ao meu ponto de partida? A incerteza
é o mais inquietante dos estados da mente!
E de repente eu
sabia o que tinha de fazer. Eu precisava de um ponto de
orientação fora daquele labirinto de tranqueiras e
galharias. De um ponto de orientação não sujeito a
correções e atualizações, como eram os
dados de meu mapa. Era uma iluminação, no verdadeiro
sentido da palavra. Eu me orientaria pelo sol. O sol, no
hemisfério norte, ao meio dia fica na direção sul.
Fazendo os necessários ajustes ditados pelo relógio, eu
caminharia em direção sul, onde sabia que afinal
encontraria uma estrada de rodagem. Faria concessões a meu
método de orientação quando as tranqueiras eram
intransponíveis, mas logo que possível voltaria a tomar a
direção sul, sempre orientando-me pelo sol.
As duas horas
seguintes foram um sufoco. Tive que valer-me de habilidades adquiridas
na juventude, nas matas da serra catarinense. Fiquei com
arranhões e contusões pelo corpo todo. Mas o sol de Deus,
pelo qual me orientava, não me deixou na mão! Afinal ouvi
o ronco de motores de caminhão, e não demorou e apareceu
minha rodovia. O mapa voltara a ser confiável, porque agora eu
sabia onde me encontrava, e quais os pontos do terreno que
correspondiam aos sinais cartográficos.
Nesta noite fui
cair na cama do meu albergue, grato, embora esgotado e com o corpo todo
doído. Antes de pegar no sono, agradeci a Deus por me ter dado
as forças para aquela caminhada forçada – e por me ter
feito lembrar o seu sol, ponto de referência confiável em
meio àquelas tranqueiras impenetráveis.
Repensando a
experiência daquele dia, mais tarde cheguei a perguntar-me, se em
muitos sentidos a situação humana em que nos encontramos
hoje não se assemelha à do caminhante perdido no matagal.
Nós todos herdamos a nossa wanderkarte espiritual, nossas regras
de conduta cristã, aprendemos a usar o mapa e a nortear nossa
vida por ele. O terreno se acha sinalizado e demarcado desde tempos
imemoriais. O que valeu para nossos antepassados, deverá valer
para nós também!
Mas de repente a
paisagem não corresponde mais ao nosso mapa. O mapa está
correto, mas o terreno está errado. É a mesma paisagem,
mas ela está cheia de tranqueiras e de sinais conflitantes. Uma
tempestade passou pelo mundo, que ganhou impulso e virulência na
última guerra mundial, tempestade que se tornou
incontrolável e que parece ter derrubado sinais e valores antes
intocáveis e sacramentados. O caminhante solitário, o que
não deseja correr com a multidão, se vê confuso.
Seu mapa não corresponde mais à realidade do terreno que
vai atravessando. Ele não consegue mais identificar o ponto
indicado na sua wanderkarte com o lugar onde ele se encontra na vida
real. O mapa parece ter perdido o nexo com a sua realidade, e assim ele
não sabe mais onde se encontra e, por conseguinte, também
não sabe para onde vai.
O que fazer? Ir
à procura de outro mapa? Mas procurar onde? Tentar salvar da
wanderkarte tradicional o que for possível, adaptando seus dados
à nova realidade? Iria resultar em colcha de retalhos, um mapa
de confiabilidade duvidosa. Penso que ninguém de nós, que
queremos ser cristãos hoje, vai sendo poupado daquela
experiência elementar: Ele precisa encontrar pessoalmente aquele
sol orientador, aquele ponto de orientação não
sujeito às tempestades do mundo nem aos caprichos e aos cochilos
de editores de mapas. Só assim ele se livra daquela incerteza
paralisante que o faz meter-se em uma tranqueira após a outra.
Se o caminhante
perdido tiver um hermeneuta a seu lado, um companheiro que já
fez essa experiência elementar no matagal da vida, tanto melhor.
Ele poderá ajudar-lhe na caminhada. Mas o melhor aprendizado que
ele poderá proporcionar-lhe será aquele: Em caso de
dúvida, em meio às tranqueiras, não se oriente por
sinais conflitantes, oriente-se pelo sol de uma fé pessoal no
Deus eterno, revelado em Jesus Cristo, que não está
sujeito às ventanias deste mundo nem aos mapas que tentam
descrever os caminhos através do matagal. Eu pessoalmente sou da
opinião que será salutar para qualquer cristão ele
se habituar a conferir as direções que lhe aponta seu
mapa orientador olhando para o sol, mesmo que momentaneamente
não haja tranqueiras que lhe barrem o caminho.
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