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  O canto do sabiá - contos cristãos    
 


A menininha do urso de pelúcia

A comunidade reunida em culto acabara de cantar o hino inicial, todo mundo de fisionomia séria e grave. O pastor, solene, vestido de trajes litúrgicos pretos, iniciou o responsório inicial em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.

Operários, artesãos, empregados, donas de casa, um idoso pastor aposentado e sua mulher, um fabricante, vendedores e donos de loja achavam-se reunidos naquela igreja aprazível e aconchegante, situada num dos bairros da cidade. Eles estavam sentados lado a lado nos bancos de madeira reluzentes de novos. Uma comunidade unida e unânime. Ou ao menos uma comunidade que parecia unida e unânime, coisa de que ainda precisaremos falar mais tarde.

Neste primeiro domingo após a Páscoa, o domingo Quasimodogeniti, como ele vem sendo chamado na tradição luterana, bem como na católica, estavam reunidas naquela igreja umas 120 pessoas.

O leitor compreenderá que não nos poderemos ocupar aqui com todos os 120 fiéis presentes na igreja, embora haja motivos mais que suficientes para tratarmos individualmente de cada um deles, já que cada qual representa uma criatura peculiar de Deus, e tem uma história bem sua, tanto com Deus, como também com os homens. Mas por motivos evidentes vamos restringir-nos aos sete que foram abordados pela menininha do urso de pelúcia, menininha que repentinamente assomou no corredor central da igreja. Foi ela quem selecionou os sete, e nós vamos apresentá-los na seqüência em que foram abordados por ela.

Aí, na segunda fila dos bancos, estava sentado aquele casal que ninguém conhecia, e que pela primeira vez participava do culto. Os dois se haviam mudado para a cidade, vindos do interior do estado, e ainda não tinham conseguido arrumar emprego. Tentavam manter-se com biscates. Antes do culto eles tinham parado diante da igreja, meio perdidos, não se arriscando a puxar conversa com ninguém, e tampouco qualquer dos antigos membros tentara conversar com eles.

O pastor, seguindo a tradicional ordem litúrgica do culto, havia chegado à confissão de pecados, quando a menininha, que parecia ter surgido do nada, ficou parada diante do casal, sorrindo para eles. Coisa estranha – a pequena devia ter sentido que os dois estavam relacionados entre si, ela sorria para os dois. E por que ela teria escolhido justamente aquele casal de fora? De bracinhos erguidos, ela lhes estendia o seu ursinho, sem ligar as palavras solenes do pastor, e pelo que parecia, ela não desejava outra coisa a não ser que o casal participasse da felicidade que lhe dava o bichinho que levava nos braços.

O fato de uma menininha de dois anos ter conseguido andar pela igreja, por certo depois de ter burlado a vigilância da mãe, em si já era um pequeno milagre, ou antes era um pequeno escândalo, dependendo do ponto de vista do observador. Em todo o caso não correspondia às tradições da comunidade, e estas tradições consagradas nas igrejas, como bem sabemos, só podem ser invalidadas ou superadas por um milagre de Deus. A menininha ou deveria ter escapulido dos cuidados maternos, ou, então, a mãe dela não se arriscaria a interferir, por causa das palavras solenes do pastor.

Pensando bem, no entanto, ainda há outra explicação para aquilo que a criança fazia: Deus, neste domingo, estava usando a menininha como pregadora para fazer valer a plenitude de seu evangelho, já que sua palavra divina corria perigo de apenas mover as mentes de seus filhos, não os seus corações. O próprio Jesus já o havia dito em sua peregrinação terrena: Deus suscita louvor da boca dos pequeninos.

A pequena, uma menininha graciosa comum rostinho inteligente, vestida de saia clara e de sapatinhos brancos, estendia seu ursinho ao casal estranho, justamenteno momento em que o pastor pedia o perdão de Deus pela frieza dos corações e pela falta de amor da qual todos se deviam achar culpados diante da misericórdia divina.

Neste próprio momento o casal teve a sensação de que o amor de Deus se havia encarnado naquela menininha e que lhes era possível abrigar-se dentro deste seu amor. No fundo, o que eles vinham experimentando, não era fruto da atitude da criança, mas da vontade de Deus que se manifestava através do sorriso da menininha. O jovem casal, ainda sem filhos, devolvia o sorriso da pequena, e as palavras da oração repentinamente lhes pareciam luzidias e calorosas. Notavam que as pessoas a seu lado também sorriam de leve, enquanto oravam. Sentiam a proximidade de irmãos e irmãs, sentiam a comunhão da fé e do amor, e sentiam a proximidade de Deus.

A menininha entrementes se havia dirigido ao banco seguinte. Sua atenção se voltara ao pastor idoso e sua mulher. O pastor, muitos anos atrás, tinha sido professor num seminário, e de momento seus pensamentos estavam ocupados com o fraseado que o liturgo havia intercalado entre a confissão de pecados e o anúncio da graça.

Por que inserir entre as orações uma transição daquelas? O idoso professor sempre havia advertido seus alunos a não fazerem uma coisa dessas. Não era o característico do dálogo com Deus que o “Glória a Deus nas alturas” seguia o “Tem piedade de nós, Senhor”, sem esplicação psicológica alguma? Kyrie eleison, Glória in excelsis. O quefaltava para ser inserido entre as duas realidades? Ao tentarmos explicar a misericórdia de Deus com os artifícios da psicologia, aí não estragávamos tudo?

Foi neste momento que a menininha erguia o seu ursinho para o casal idoso. Coisa assombrosa, ela mais uma vez parecia saber que os dois eram um casal, já que não fazia distinção entre eles. Seu sorriso, ademais, não era turvado por nenhuma reflexão teológica. A mulher do pastor devolveu o sorriso da criança com espontaneidade. O pastor, de sua parte, não conseguia pôr de lado suas reflexões críticas. Ele, bem no fundo, já havia esperado por este anexo psicológico, e sua reação de certa forma já vinha programada. Ele jamais se deixaria levar pela corrente psicologizante que hoje em dia ameaçava tomar conta da teologia, em toda a parte!

Mas quando a menininha continuava a olhá-lo com seu sorriso radiante, ele pôs de lado suas reservas teológicas, devoveu o sorriso da pequena, e no mesmo instante entoou o Glória, junto com os demais, e repentinamente ele sentia uma felicidade estranha, sentia uma onda de calor a invadir-lhe o coração, e independentemente de todas as palavras humanas e de todos os modismos humanos, tudo lhe passou a ser uma realidade só: A prece pela misericórdia de Deus e a promissão de sua graça se fundiam em uma única experiência: O amor de Deus assomava glorioso e poderoso ao lado da miséria humana, sem mediação alguma, e parecia-lhe que a miséria humana ia sendo devorada pelo amor divino.

Tudo era um grande milagre, assim como fora no primeiro dia da criação. Claro que este milagre também não tinha sua origem no sorriso da menininha, mas no fato de Deus ter colocado a criança a serviço de seu amor.

Em seguida a criança se voltou para uma mulher de meia idade, sentada à cabeceira do seguinte banco. O pastor, entrementes, havia chegadoà leitura bíblica, e já que era o domingo Quasimodogeniti, ele lia o evangelho do dia, constante na primeira epístola de Pedro:

“Despojando-vos, portanto, de toda maldade e dolo, de hipocrisias e invejas e de toda sorte de maledicências, desejai ardentemente, como crianças recem-nascidas, o leite espiritual, para que, por ele, vos seja dado crescimento espiritual para salvação.”

Como crianças recem-nascidas. Quasi modo geniti. Como bebês que acabam de nascer. O nome latino do domingo significava bem aquilo. A menininha, assim, era parte integrante da liturgia do culto. Só que o pastor ainda não parecia ter dado pela coisa. Seu olhar inquieto passava pelas bancadas, assim como se estivesse a procura de alguém que era responsável pela criança. Ele continuou com a leitura, mas via com crescente contrariedade que a pequena ia continuando o seu joguinho, à espera da única reação que lhe parecia possível da parte dela.

Mas a reação esperada deixou de acontecer. A mulher não dispunha de nenhum sorriso armazenado em seu coração que alguém fosse capaz de descongelar. O pastor, tentando concentrar-se na leitura do trecho bíblico, captou a cena, num rápido olhar. Era uma lástima! Justamente aquela mulher! Seus pensmantos se haviam ocupado com ela desde as primeiras palavras da leitura bíblica. Nos últimos meses esta criatura havia semeado discórdia na comunidade com sua maledicência. Pessoas que neste culto estavam sentados lado a lado, não se saudavam, quando se encontravam na rua. A culpada era aquela mulher.

A maledicência também havia atingido o seu próprio trabalho pastoral. Ao preparar o culto, ele havia sentido uma grande satisfação, quando tinha lido aquele trecho da epístola de Pedro. O sapato iria servir a esta mulher, como se tivesse sido feito sob medida. Como ela poderia ter a coragem de sentar justamente naquele banco no qual ao menos uma senhora tinha tomado lugar sobre a qual ela espalhara inverdades? E agora vinha esta coisinha miúda e a distraía com seu ursinho de pelúcia! A mulher não calçaria o sapato que Deus lhe preparara. A oportunidade passara sem ser aproveitada!

Mas a pequena continuava parada em frente da mulher e, cheia de expectativa, lhe estendia o seu ursinho. Ficou parada por mais tempo diante dela do que havia parado diante das outras pessoas, por muito mais tempo. E então aconteceu que nos olhos da mulher apareceu um brilho, um rebrilhar fugidio, que, em verdade, só Deus era capaz de ver. Deus e a criança. As palavras da Bíblia, lidas na liturgia, de começo a haviam assustado, mas depois o pastor falara do leite do evangelho e da salvação que Deus oferecia a todas as pessoas, e da casa epiritual na qual ele queria que suas criaturas humanas fossem pedras vivas.

E enquanto essas palavras ainda lhe ressoavam na alma, a menininha sorrira para ela, como se Deus quisesse dizer que sua misericórdia também se referia a ela. E já que ela, de momento, não era capaz de sorrir, limitou-se a estender a mão e a acariciar a cabeça do ursinho, enquanto fazia um gesto afirmativo quase imperceptível com a cabeça. E a pequena, satisfeita, se voltou para o próximo fiel.

Este estava parado à cabeceira do banco seguinte, e também ele não parecia nada disposto a sorrir. Ele ainda não completara 60 anos, mas parecia um homem velho, já que estava doente, muito doente. O médico, dias atrás, lhe havia dito a dura verdade. Ele não viveria mais por muito tempo. Em breve ele dependeria totalmente dos cuidados de seus familiares. Ainda não falara com ninguém sobre o peso que o deprimia. Ele era um homem de fé. Em sua angústia viera ao culto para meditar, para orar, e para ouvir uma palavra de Deus que lhe desse firmeza e conforto.

E agora esta menininha se tinha metido entre ele e Deus, e exigia dele que afastasse da mente seus pensamentos graves e sua preocupação com o futuro, assim como se tudo fosse perfeito e bom assim como era.

Ó, pequena, se tu soubesses como a vida pode ser dura, como ela pode ser amarga, aí tu não irias pairar por essa igreja, feita uma pequena fada, esbanjando sorrisos. Vai chegar o dia em que o mundo te vai iniciar na vida real, e então já não terás nenhuma vontade de sorrir. Vais ter de encontrar a Deus em meio a cruz e sofrimento, assim como eu encontrei.

A pequena olhou o rosto do homem sisudo por longo tempo, como a estudar sua fisionomia; depois lhe estendeu seu ursinho para que o pudesse afagar com as mãos, pois ao olhar o seu rosto triste, ela se dera conta de que ele estava precisando de um pouco mais de alegria do que as outras pessoas. Mais ela realmente não poderia fazer, isso também estava sentindo o homem triste. Ele próprio tinha netos da idade aproximada da pequena, e ele bem sabia que não se deve rejeitar uma oferta dessas, quando feita por uma criança.

Assim ele pegou o ursinho, apertou-o contra o peito, e devolveu-o, atencioso, à sua dona. E já que ele era um homem crente, familiarizado com a maneira pela qual Deus costuma falar a seus filhos, não demorou a notar que o Pai celeste tinha sua mão no jogo, e assim ele abriu ainda mais as janelas de sua alma para a palavra de Deus.

A liturgia entrementes havia chegado à confissão de fé. A pequena, ao notar que a comunidade inteira estava ocupada em recitar o Credo Apstólico, voltou sua atenção para o pastor. Com passinhos comedidos, como que ensaiados como parte da liturgia, ela voltou-se para o altar, ficando parada em frente do pastor até o fim da recitação do terceiro artigo do Credo que, como sabemos, trata do Espírito Santo, da santa igreja cristã e da comunhão dos santos. Depois, com algum esforço, subiu os dois degraus à frente dela e, com um sorriso conquistador, estendeu seu ursinho ao pastor.

O professor aposentado pensava com os seus botões: essa é a hora da verdade para a teologia dele. Vai ele deixar que a criança participe da liturgia ou não vai deixar? Vai expulsar a menininha da comunhão dos santos? Bem no fundo do coração ele tremia ante a possibilidade de uma decisão errada, uma decisão daquelas que separam os corações em vez de os unir.

Mas neste culto dominical tudo parecia correr segundo o coração de Deus. O pastor disse o que devia dizer. E não foi porque fosse especialmente inteligente, ou porque possuisse especial presença de espírito, mas era porque o Espírito de Deus estava presente e lhe inspirava as palavras. Outrora, num caso assim, se falava de graça ministerial, graça que Deus concedia aos que lhe serviam. O pastor, depois de alguns momentos de silêncio, pôs a mão na cabecinha dela e disse:

“Jesus diz: Se não vos tornardes como as criancinhas, não chegareis ao reino dos céus. Esta menininha, no decorrer deste culto, nada fez a não ser repartir sua felicidade com todos nós. Para ela, seu ursinho de pelúcia deve ser o maior tesouro que consegue imaginar. Ela não o quis guardar só para si mesma. Não fez nenhuma distinção. Não rejeitou ninguém, não excluiu ninguém. Se lhe déssemos tempo, com certeza estenderia sua oferta a cada um de nós. Jesus quer que sejamos assim como a pequena. No fundo, o sermão deste domingo já foi pronunciado por ela.”

E então a mãe da menina, tendo criado coragem, veio para a frente, pegou a filhinha pela mão, sorriu para ela e levou-a de volta para o seu lugar.

E o culto continuou, solene como sempre. Mas parecia que as orações e as mensagens se tinham tornado transparentes, era como se viessem sendo iluminados por um brilho suave, que antes ninguém notara, brilho que punha os corações dos fiéis em sintonia com o coração de Deus.

E quem iria calçar o sapato da mensagem deste culto? Em verdade ele podia ser calçado por todos os 120 fiéis presentes (e por outros tantos leitores deste livro). Não seria mais necesssário falar-se de cada um por si. O sapato serviria a homens e mulheres, a jovens e idosos. Serviria até para os que usavam calçado de padrão e tamanho descomunais.

Pensando bem, o sapato em questão nem parece ser algum calçado comum, nenhum calçado cujo formato a moda vai ditando mundo a fora. Parece antes ser do feitio das sandálias que Jesus Cristo costumava usar.

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