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   O que eu creio   
 

    
do prefácio

O leitor vai descobrir, ao ler as páginas deste livro: Ele não vai deparar-se com mera série de dogmas e pontos doutrinários mais ou menos bem explicados, mas ele vai ser envolvido pelos assuntos tratados, e vai sentir que o livro trata dele mesmo e de seu próprio relacionamento com Deus.

Ao abordar os temas básicos da fé cristã, seguimos a seqüência adotada por Lutero, em seu Catecismo Menor. Nossos textos poderão servir de subsídio para o estudo deste livrinho clássico de Lutero, patrimônio não só das igrejas luteranas, mas de toda a cristandade. Mas também poderão ser estudados independentemente por quem queira aprofundar-se nos conteúdos centrais da fé. As numerosas citações bíblicas que entremeiam os textos querem ajudar ao leitor a entender o que Deus lhe quer dizer por intermédio da palavra revelada da própria Bíblia.

No aprendizado da fé, ninguém de nós chega a um ponto em que possa afirmar: aprendi a lição, nada mais me resta aprender. O discípulo continua discípulo até o fim da vida. E principalmente o discípulo que assumiu a função de levar outros ao discipulado precisa aprofundar-se constantemente na riqueza da Escritura Sagrada, precisa seguir os veios de ouro nela contidos, assim que se torne capaz de passar adiante o tesouro encontrado para outros, que dele necessitam. Num tempo em que as verdades centrais da revelação bíblica correm perigo de serem confundidas com coisas periféricas, nosso livrinho poderá ser uma ajuda para obreiros cristãos e para qualquer cristão ativo no desempenho de sua missão.

  • EU SOU O SENHOR TEU DEUS – Não terás outros deuses diante de mim (Êxodo 29.3)

Por que não ter outros deuses, se não existe outro deus além do Deus único e verdadeiro? Por que proibir a adoração de outros deuses, se eles não passam de imaginação humana, de projeção dos desejos e dos temores do coração das pessoas? – É justamente por essa razão: o deus eterno e verdadeiro não quer que adoremos o produto de nossa própria imaginação; não quer que adoremos coisa inventada: deuses que nada criam, senhores que não mandam, salvadores que não salvam. Ao lado do Deus verdadeiro não há lugar para deuses de mentira ou de mentirinha.

Não é que Deus tenha ciume dos deuses falsos. Ele bem poderia ignorar os ídolos criados pelas religiões humanas de todos os tempos. Eles não o afetam como Deus, não tiram nada de sua santidade nem de sua glória divina. Mas se nos adverte contra a adoração de ídolos é por nossa própria causa. O ser humano foi criado à imagem de Deus. Se ele tentar inverter as coisas, criando um deus à sua própria imagem humana, ele perde as raizes do seu próprio ser. E uma planta sem raizes perde a capacidade de crescer e de vingar. Deus quer que vivamos. Ele nos ama. É por isso que ele não nos deixa à mercê dos pseudodeuses.

O profeta Jeremias diz (10.15): “Os ídolos são como um espantalho no pepinal, e não podem falar; necessitam de quem os leve, porquanto não podem andar. Não tenham receio deles, pois não podem fazer mal, e não está neles o fazer o bem.” – Espantalhos num pepinal: eles não podem fazer bem nem mal – mas verdade é que espantam. Espantram os que voltaram as costas ao verdadeiro Deus, que não vivem mais em comunhão com ele. As constelações no céu, o sol e a lua, a posição dos planetas, todo o mundo fantasioso dos horóscopos e da astrologia: não fazem mal nem bem – mas ninguém pode negar que espantam. E Deus não quer que nos deixemos assustar por espantalhos. Ele nos quer dar paz, quer livrar-nos dos nossos temores. É por isso que nos adverte contra os espantalhos, os religiosos e os não-religiosos.

Nosso país está cheio de espantalhos religiosos. A religiosidade popular venera estátuas de santos. As religiões africanas trazidas pelos escravos identificaram estes santos com suas divindades, os orixás e os exus. Aí o “santo baixa” no terreiro, o macumbeiro faz despacho nas encruzilhadas – e o espantalho no pepinal se agita no vento da crendice. Espanta milhões de pessoas que buscam ajuda no lugar errado por não conhecerem ou por rejeitarem o Deus verdadeiro, o Pai de Jesus Cristo. Deus nos adverte com seriedade: Não terás outros deuses além de mim. Não troques minha paz com o espanto espalhado pelos marqueteiros da crendice..

Mas não devemos pensar só em estátuas e em despachos, em fetiches e em horóscopos, ao tratarmos do primeiro mandamento. Qualquer coisa imaginada e feita pela pessoa pode tornar-se um ídolo, um “espantalho” profano. O dinheiro, todos os bens materiais, uma filosofia, uma ideologia política, um esporte, um vício, o próprio trabalho: tudo pode transformar-se em ídolo que ameaça ocupar o lugar que só compete a Deus. E onde este lugar vai sendo ocupado, aí o mal toma conta: a injustiça, a ganância, a desonestidade, o adultério, a falta de amor, a exploração do homem pelo homem: tudo isso acompanha a idolatria, seja ela religiosa ou não-religiosa. Porque os ídolos são mudos. Os espantalhos não falam. Eles não dizem: isso está errado, não é justo o que estás fazendo, muda de vida, pratica a justiça, pratica o amor... Os ídolos não contradizem os instintos maus do coração, porque eles próprios são produtos do coração humano. O Pai de Jesus , porém, é um Deus que fala.

Em Êxodo 20.4-6 Deus proíbe a Israel que faça qualquer imagem ou escultura de divindades para adorá-las. Lutero, em seu Catecismo Menor, contou estes versículos como parte integrante do primeiro mandamento, e não os relacionou em separado. O Reformador João Calvino conta os mesmos versículos como segundo mandamento. Daí vem a diferença de contagem dos dez mandamentos entre as diversas igrejas. A própria Bíblia não deu números aos mandamentos, nem diz que são dez. A numeração não importa. O que importa é o conteúdo. E é muito bom que tenhamos a Bíblia para conferir nosso catecismo, assim como o próprio Lutero o quis. Ao lermos os mandamentos com os ollhos iluminados por Jesus Cristo, no qual se revelou o Deus da verdade, aprendemos a distinguir os espíritos perversos e os deuses falsos e a adorar o Pai de Jesus, em Espírito e verdade.

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